12 de julho de 2017

Grand Canyon visto de todos os ângulos

Desert View, na borda Leste do Grand Canyon, com rio Colorado ao fundo
A paisagem preenche até onde a vista alcança. Da borda de um desfiladeiro naquela imensidão rochosa, você se sente pequeno, e é bom que seja assim. Esse talvez seja o maior ensinamento que o Grand Canyon tem a nos dar.

Já a maior experiência _ aquela que você vai contar para os netos um dia, sabe? _ exige um pouco mais de sacrifício. É descendo a pé os paredões do canyon até o maior responsável pela existência deles, o Rio Colorado, que você entende a grandiosidade do lugar.

O Grand Canyon é patrimônio mundial declarado pela Unesco e um dos destinos mais visitados nos Estados Unidos _ cerca de 5 milhões de pessoas por ano. A vocação para o turismo começou há muito tempo, ainda na década de 1920, quando os primeiros aventureiros endinheirados enfrentaram horas de viagem de trem e em dorso de mulas para conhecer o tal paraíso exótico.

Ele fica no estado do Arizona, nos Estados Unidos. A área que se tornou parque nacional equivale a três cidades de São Paulo (4.926 km²) e cerca de 94% dela permanece intocada, selvagem. Mas a imensidão de desfiladeiros serpenteados pelo Rio Colorado é ainda maior e se estende para fora do parque. Um exemplo é o West Grand Canyon, que fica nas terras de uma comunidade indígena e é opção de muitos turistas que só têm tempo para um passeio de um dia. Ele é apenas um aperitivo do que o parque nacional tem a oferecer.

A minha porta de entrada para o Grand Canyon foi Las Vegas, mas existem outros aeroportos mais próximos nas cidades de Flagstaff e Phoenix. O plano foi executar um roteiro de 10 dias ao melhor estilo americano. A bordo de um motorhome, cortei a histórica estrada Rota 66 e suas cidadezinhas típicas dos filmes de faroeste. No início da primavera (abril), florestas de pinheiros cobertos de neve passaram pela janela da minha casa sobre rodas. Foi uma jornada de cerca de 800 milhas (+ou- 1.200 quilômetros) ida e volta e muita história para contar. Bora lá!


Vencendo o gigante

Trilha South Kaibab leva às entranhas do Grand Canyon; foram cinco horas e meia de descida até o Rio Colorado
"Descer é opcional. Subir é obrigatório", diz a placa logo no início de uma das trilhas do parque. O aviso me veio à cabeça quando eu, exausta, depois de umas quatro horas caminhando, estava subindo os paredões do gigante.

Posso dizer que a maior expectativa que eu tinha em relação a essa viagem era fazer o hiking que vai do topo da borda sul do Grand Canyon até as margens do Rio Colorado. É uma aventura de dois dias _ um para descer e outro para subir.

A tarefa foi árdua desde a concepção. Mais do que preparo físico, foi preciso ter sorte para conseguir uma permissão do parque nacional para fazer um pernoite lá embaixo. É regra. Ninguém pode descer até o Rio Colorado e passar uma noite acampado à beira dele _ no único camping que existe por lá (Bright Angel Campground) _ sem uma autorização.

As permissões são limitadas. Os interessados precisam se inscrever com, pelo menos, dois dias de antecedência no escritório do parque e aparecer lá bem cedo _ às 8 horas _ no dia escolhido para iniciar a aventura da retirar de sua licença. O negócio é tipo loteria. Eles chamam seu nome duas vezes, se não estiver lá passa a vez para o próximo da lista.

Não é aconselhável descer e subir o Grand Canyon no mesmo dia porque são pelo menos 5 horas para descer e outras 6 ou 7 horas para subir. Por isso, a necessidade da licença para acampar.
Vencida a burocracia, entrei no ônibus que leva até o início da trilha. No parque, há linhas de ônibus gratuitos que levam aos principais atrativos. (Leia mais abaixo)

Eram 8h30 quando coloquei os pés na trilha, a South Kaibab. O retorno, no dia seguinte, foi pela trilha Bright Angel. A escolha não foi aleatória. A South Kaibab não tem pontos com água, então, é mais usada para a descida porque todos partem com o cantil abastecido.

Não é por ser uma descida _ são quase um quilômetro de altitude a ser enfrentada _ que a tarefa é fácil. O caminho, de terra, claro, fica à beira dos penhascos em sua maior parte e é estreito e íngreme todo o tempo. É um zigue-zague sem fim até chegar ao Colorado.

Trilha recorta as paredes do canyon numa pista estreita e íngrime
Ele oferece o visual mais incrível daquelas montanhas. Fiz a viagem no início de abril, portanto, início da primavera. Acho que é a melhor época para fazer a caminhada porque as temperaturas estão amenas, mais até para friozinho do que calor. Descer e subir com um sol de mais de 30º C na cabeça, como ocorre não verão americano, não dever ser nada agradável.

Na primavera, os paredões ganham arbustos verdinhos e, de longe, a impressão é de um imenso tapete peludo. Flores amarelas, vermelhas, laranjas brotam por todo o canto nos penhascos. Mirantes não faltam para apreciar a vista entre um descanso e outro. Há um ponto de parada com banheiro.


Somente na parte final da trilha, depois de quase cinco horas de caminhada, o Rio Colorado aparece pela primeira vez. Nessa hora, eu já estava cansada, confesso. A mochila com comida, água, roupa, saco de dormir e equipamentos para o acampamento _ e um vinho para a noite sob as estrelas, claro _ pesava demais a essa altura.

Trecho final da trilha South Kaibab com o Rio Colorado
A movimentação na trilha foi tranquila. Vez ou outra encontrei caminhantes, mas, no geral, a jornada é solitária. Se der sorte vai topar com um grupo de mulas. Elas sobem e descem com suprimentos e turistas no lombo para o Phantom Ranch, única opção de hospedagem para quem não quer ficar em barracas de camping.

O problema é que é mais fácil ganhar na Megasena do que conseguir uma vaga em uma das charmosas cabanas. As pessoas fazem reserva com mais de um ano de antecedência e, a partir deste ano, o parque decidiu que as vagas serão sorteadas e não mais reservadas. (Se quiser mais informações veja aqui).

A trilha percorrida pelos aventureiros de hoje é a mesma que, 80 anos atrás, abastados excêntricos percorreram para conhecer o exótico destino turístico americano.


O Bright Angel Campground é muito organizado. Os locais para as barracas (que você precisa levar, porque eles não disponibilizam) são demarcados e oferecem bastante privacidade. No parque, há ym loja que aluga equipamentos para camping. Se conseguir chegar cedo, antes das 15 horas, é possível encontrar vaga à beira de um riacho delicioso para dormir com o barulhinho da água.


Para revigorar pés e pernas, o Rio Colorado está a poucos metros do acampamento. Há uma prainha de areia fofa para esticar uma toalha e relaxar. A única frustração foi não ter conseguido dar um mergulho no Colorado. A água estava congelante e o máximo que consegui molhar foi até a altura dos joelhos. Apesar de não ser muito agradável, a água fria ajudou a recuperar os pés para a segunda parte da aventura que começaria no dia seguinte bem cedo. Fiquei ali estendida na areia até o fim de tarde com um sol delicioso recarregando as baterias.

Praia do Rio Colorado no camping Bright Angel; refresco para os pés após terminar a descida
Entardecer com a lua se antecipando
 A subida no dia seguinte teve uma paisagem um pouco diferente. A trilha Bright Angel corta a montanha por trechos com árvores, riachos, pequenas quedas d'água e muuuuitos esquilos. Ela é mais longa que a South Kaibab, porém, menos íngreme. Tem pontos de parada com água potável e bastante sombra.

O dia começou cedo, por volta das 7 horas, com um sanduíche e uma fruta trazidos na mochila e a desmontagem da barraca. Tudo ficou pronto umas 8 horas quando pusemos o pé na estrada.

Início da trilha Bright Angel na subida para o topo do canyon 
 Foram seis horas e meia até chegar ao topo do canyon. As últimas duas horas, já com o sol a pino, foram cansativas. A cada parada, era possível ver a trilha serpenteando as montanhas e tudo que havia caminhado aquela manhã. Pensamento fixo na chegada. Eram quase 16 horas quando cruzei a linha.

Trilha Bright Angel cortando o canyon

Beba água do Grand Canyon 

A estimativa é de que existam cerca de 600 riachos e nascentes no Grand Canyon. É de um deles, chamado Roaring Spring, que vem a água que abastece todo o parque e mata a sede dos visitantes nos bebedouros espalhados por toda a área. A tubulação que leva a água do North Rim (borda norte) para o South Rim (borda sul) pode ser vista na descida dos paredões. Ela começou a ser construída em 1964 e, até hoje, é a que abastece o parque. Pelo processo de deterioração com o tempo, são frequentes os rompimentos da tubulação.


Passeio de bote no Rio Colorado

Eu só não conhecio o Grand Canyon pelo ar. Há passeios de helicópteros mas achei caro demais. Preferi investir num passeio menos convencional que é percorrer o Rio Colorado em um bote. Uma única empresa tem concessão para fazer o tour (Colorado River Discovery), que custou cerca de US$ 100 por pessoa.


Eles anunciam que é um rafting pelo Rio Colorado, mas não chega nem perto disso. Não há correnteza tampouco você sairá molhado. É bem seguro, até demais!!! O atrativo é apreciar os paredões de cima e conhecer um pouco mais sobre a formação do Grand Canyon.

Se você estiver com o roteiro muito justo, avalie se vale a pena fazer o passeio. A saída para o tour é numa cidade chamada Page, a cerca de três horas de viagem da borda sul do parque. Ela fica mais próxima do North Rim.


Jantar elegante no parque

A viagem é de aventura, mas nem por isso tem que ser desprovida de glamour. O restaurante mais tradicional do Grand Canyon se chama El Tovar. Para se sentar em de suas mesas, por onde já passaram Paul McCartney e Bill Clinton, tem que fazer reserva com antecedência. Portanto, programe-se.


O que fazer no South Rim

É a área mais turística e visitada do parque nacional do Grand Canyon. O lugar [e bem grande, portanto, prepare-se para bater perna. O principal atrativo são as trilhas. O cardápio é democrático: tem trilha asfaltada, de terra, fácil, difícil...

Se não quiser caminhar, pode alugar uma bike no parque e pedalar. Só preste atenção porque não é toda trilha que aceita bikes. Há tours de bicicleta se quiser ficar mais relaxado.

Apreciar a vista do canyon é apenas uma das atividades. Lá dentro há museu, exposições, exibição de filmes e pocket shows. No centro de visitantes tem toda a programação.

Um dos mirantes da Rim Trail, a trilha mais movimentada no South Tim
A caminhada que não pode deixar de ser feita é pela trilha que margeia toda a borda sul do canyon, chamada Rim Trail. Ela tem 20 km de extensão e passa pelos principais pontos turísticos e de apoio do parque, como lojinhas, restaurantes, supermercado... Em alguns mirantes, dá para ver de perto os paredões do canyon. Se preferir, pode percorrer trechos dela e, quando cansar, pegar um dos ônibus gratuitos até um trecho mais adiante. Ela é bastante movimentada.

Se estiver procurando algo mais tranquilo e silencioso, sugiro a trilha Santa Maria Springs, que começa atrás do Hermits Rest, um snack bar. Ela tem cerca de 8 km ida e volta, ou seja, de 4 a 6 horas de caminhada. Mas, se preferir, pode fazer um trecho mais curto. Depois de uns 40 minutos de trilha, o visual já é esse da foto aqui embaixo.

Paisagem na trilha Santa Maria Spring

Também não se pode deixar de ver um por-do-sol em sua passagem pelo Grand Canyon. Os locais mais concorridos ficam num trecho mais isolado na Rim Trail, conhecido por Hermit Road. O acesso a ele é só com os ônibus do parque. São nove paradas para observação do por-do-sol, mas as mais apreciadas para o entardecer são Hopi Point e Mohave Point. Do outro lado do parque tem Yaki Point.
 
Por-do-sol no Hopi Point

Yaki Point
Paredão no Navajo Point ganha tons de dourado no por-do-sol

Passeio de trem

Para quem quiser um pernoite numa cidadezinha charmosa e ainda fazer uma viagem de trem, pode dormir em Williams. Do parque, sai uma locomotiva uma vez por dia em direção à cidade, que fica a cerca de uma hora do parque. Williams é charmosa, pequena e tem cara de cidade cenográfica. Lá tem uma loja de vinhos feitos com uvas do Arizona. É um bar descolado que oferece degustação da bebida. É uma ótima recordação para levar da viagem. (Grand Canyon Wine Co.) Infelizmente, não consegui provar, mas fica a dica.


O que fazer no Desert View

Achei que ele tem as vistas mais abrangentes do canyon. Só ali é possível ver, sem muito sacrifício, o Rio Colorado serpenteando os desfiladeiros. Uma torre de observação charmosíssima  ajuda a ter uma visão 360 graus da imensidão dos canyons.

Watch Tower oferece visão 360 graus do Desert View

Também me chamou a atenção o silêncio... É o oposto do frenético movimento de turistas do South Rim. O problema é que, para chegar ao Desert View, é preciso ter carro. As linhas de ônibus do parque não circulam por lá. Você pode chegar também de bicicleta, mas a estrada é meio monótona e isso pode tornar o passeio mais cansativo do que prazeroso. Como eu estava de motorhome, fui com ele até lá e fiz um pernoite em um dos mirantes do Desert View (Moran Point). Foi o por-do-sol mais espetacular da viagem.  Fica nesse núcleo o único posto de combustível do parque.


Cenário mais selvagem do Desert View

Desert View

Saiba antes de ir para o Grand Canyon

* Apenas 5% dos visitantes do parque se aventuram a descer e subir o canyon. A parte mais visitada do parque é o seu topo ou platô, onde estão mirantes, restaurantes, lojinhas, supermercados e hospedagem. Essa rede de atrativos é toda interligada por trilhas curtas e linhas de ônibus que levam de um canto a outro do parque.

* O Grand Canyon é dividido em quatro núcleos - South Rim (Borda Sul), North Rim (Borda Norte), East Rim (Borda Leste) e West Rim (Borda Oeste). O parque nacional abrange os três primeiros. O lado Oeste fica fora do parque, dentro de uma reserva indígena, e é administrado por uma tribo.

* O núcleo Oeste é o mais perto de Las Vegas, cerca de 3 horas de carro. Muitas agências de turismo oferecem passeios de bate-volta. A principal atração dele é um mirante construído com placas de vidro que dá ao visitante a sensação de estar flutuando sobre o canyon (Skywalk). Mas ele é recomendável apenas para quem não tem tempo de chegar até o parque nacional.

* O South Rim é o mais visitado por ter a maior infraestrutura para o turismo. Lá tem opções de hospedagem, restaurantes, estacionamento, supermercado, lojas para alugar equipamentos de camping e bicicleta e até uma estação de trem. Há trilhas, das mais fáceis às mais difíceis, e muitos mirantes. Ficar hospedado dentro do parque exige planejamento. Reservas precisam ser feitas com mais de seis meses de antecedência. No site do parque estão todas as opções de estadia. Linhas de ônibus gratuito levam a diversas trilhas e mirantes do South Rim.

* O East Rim, também chamado de Desert View, fica a uns 15 minutos de carro da entrada do South Rim. O principal cartão postal de lá é uma torre charmosíssima (Watch Tower). Ele é menos visitado porque os ônibus que circulam no parque não atendem essa região. Só se chega até ela de transporte próprio. Bicicleta pode ser uma alternativa, mas a estrada (compartilhada com os carros) é meio monótona e pode tornar o passeio mais cansativo do que prazeroso. Há quatro mirantes e, em todos, há vagas para estacionar. O único posto de combustível dentro do parque fica nesse núcleo.

* O North Rim é conhecido por ser a parte mais selvagem de todo o parque. Mas ele não fica aberto ao público o ano inteiro, como acontece com os demais núcleos. A entrada para esse lado do parque também fica distante do South Rim (cerca de três horas). Eu não o conheci porque quando estava lá (abril/2017) ele estava fechado.

* A primavera é a melhor época do ano para visitar o parque porque o movimento ainda não é tão grande, como no verão, e as temperaturas são amenas. No início de abril, ainda peguei resquícios de neve nas florestas de pinheiro e noites com termômetros a -3ºC. No verão, o parque fica lotado.


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