8 de maio de 2016

Expedição ao Monte Roraima

Vista que se tem do Monte Roraima (dir) e de seu vizinho, Kukenan, no primeiro dia de trekking
Um dos lugares mais antigos do planeta, o Monte Roraima é uma legítima selva de pedra. No topo, pedras imensas e negras desafiam a imaginação de qualquer um com suas formas inusitadas esculpidas pela natureza há mais de 2 bilhões de anos _ sim, essa é a idade estimada do Roraima. Na paisagem monocromática e bruta, flores de cores vibrantes e delicadas que só existem ali brotam das rochas e parecem desafiar a própria existência. O corpo extenuado pela subida é revigorado em jacuzzis naturais. Tudo nesse gigante parece conspirar para deixar em seus visitantes uma experiência marcante, seja de superação, reencontro ou descoberta.

Já se foram 132 anos desde a primeira expedição oficial para desvendar os mistérios do Tepuy Roraima, comandada por dois ingleses em 1884, e, ainda assim, boa parte dessa "ilha" encravada no meio do nada na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana com seus paredões intimidadores de cerca de um quilômetro de altura continua desconhecida e inexplorada.

Selva de pedra no alto do monte: paisagem monocromática
Aproveitando as poucas horas de sol


"Bonsais" avermelhados suavizam a cena

Flores diferentes chamam a atenção no topo do Monte Roraima
Para a ciência, trata-se de um fenômeno geológico resultado da movimentação de placas tectônicas que, em algum momento, fez essa porção da terra se desprender e ser projetada para a superfície. Já, lendas indígenas dizem que o monte foi um castigo do céu para antigos habitantes da região que se deixaram seduzir pela ambição e a cobiça. :-() Fico pensando o que apareceria no meio de Brasília se os deuses resolvessem se rebelar hoje em dia...

Seja como for, a verdade é que ainda hoje não é fácil chegar ao topo do Roraima. Só há dois jeitos: por helicóptero ou pelas próprias pernas. Eu escolhi a segunda opção. O Monte Roraima está entre os trekkings mais conhecidos no mundo.

Grau de dificuldade do trekking aumenta a cada dia durante a subida

Em condições normais, são três dias de caminhada para vencer os enormes paredões. Acho que, como muita gente que decide encarar a aventura pela primeira vez, eu comecei a jornada insegura quanto a minha condição física. Posso dizer agora que não é preciso ser atleta para subir o Roraima, mas é preciso preparo e alguma experiência em trilhas para sofrer menos.

São cerca de 30 km o percurso até o topo, partindo da comunidade indígena Paraitepuy. Metade disso é em terreno plano e piso de terra e percorrida no primeiro dia. Ou seja, tranquilidade. Nos outros dois dias, o nível de dificuldade aumenta: pedras estarão no meio do caminho em subidas intermináveis. Se estiver chovendo, como foi no meu caso, o cuidado tem que ser redobrado. Na descida, o mesmo trajeto é feito em dois dias.

Travessia do Rio Tek

Nesse enfrentamento com o cansaço e os próprios limites é que começamos a entender porque conquistar o Roraima é, para muitos, sinônimo de SUPERAÇÃO. Eu que gosto muito da objetividade das narrativas tenho que abrir aqui um parenteses para contar a história mais incrível de superação que ouvi durante a minha jornada do Luisito, um dos nossos guias na expedição.

Um brasileiro amante das alturas e praticante de alpinismo contrariou tudo e todos e subiu o gigante Roraima depois de ter sofrido um acidente em uma de suas escaladas que o deixou com a bacia fraturada em quatro pontos e uma das pernas praticamente paralisada. Viciado em esportes radicais ele se viu numa cadeira de rodas e ouviu dos médicos que jamais voltaria a andar.

Contra todos os prognósticos, ele começou a ensaiar os primeiros passos depois de muita reabilitação. Então os médicos disseram a ele que havia conseguido um grande avanço, mas que não se animasse porque aqueles passos não passariam de pequenas caminhadas. Ele não aceitou e desafiou que não só voltaria a andar como subiria o Roraima. Foi o que fez no ano passado na companhia de um amigo e do guia. Chegou ao topo e lá em cima foi aplaudido pelas pessoas que haviam cruzado com ele pelo caminho e testemunhado a operação de guerra montada para a subida do brasileiro. Muitos duvidaram que a façanha seria concluída. O guia foi chamado de louco por colegas quando aceitou o desafio. Para ter uma noção da empreitada, o último trecho que se faz normalmente em 5 horas no terceiro dia, eles levaram 12 horas. Claro que essa história é o extremo do extremo. Mas, para mim, ficará na lembrança como símbolo máximo da superação que o Roraima inspira.

Entre abril e setembro é a temporada de chuva no Roraima
Conheci um Roraima acinzentado, tomado por nuvens e chuva. Não tive dele dias ensolarados, com exceção de uma tarde (abril/2016), mas em compensação tive o privilégio de noites de lua cheia, imensa, que deram às pedras negras e molhadas um brilho hipnótico. É verdade que algumas vezes a paciência perdeu a luta contra a chuva quando meias, roupas e sapatos estavam encharcados e o frio chegava sem dó. O primeiro dia em que a lua apareceu, poderosa, foi num entardecer em cima do ponto mais alto do Roraima, uma formação rochosa apelidada de Maverick. Foi nossa recompensa depois de muita chuva. O por-do-sol no Maverick é passeio obrigatório para quem chega ao topo. Se tiver sorte e houver poucas nuvens, terá uma vista de grande parte do monte e da Gran Savana venezuelana do Parque Canaima.

Seguindo para o pôr-do-sol no Maverick (ao fundo), ponto mais alto do monte Roraima

Paredão do Maverick em detalhe

Entardecer com lua cheia no topo do Maverick
Lua dos apaixonados; parece ou não o perfil dos rostos de um casal 
Noite iluminada à vista

Espetáculo de cores no anoitecer

Dependendo do roteiro que escolher, pode-se ficar de 2 a 5 noites no topo. Fiz o mais curto por falta de opção mesmo. Os outros grupos estavam lotados. Vi muito pouco do que o monte tem para mostrar. Mas foi o suficiente para me impressionar com a harmonia entre a brutalidade e a delicadeza daquela paisagem. A miudeza das orquídeas, a delicadeza das plantas carnívoras e o sapo que é do tamanho de um dedo... Ah, os "bonsais" avermelhados do Roraima. Fiquei enfeitiçada por eles, não conseguia parar de fotografar.

Sapinho do monte

"Bonsai" do Roraima

Das pedras de quartzo só pude ver uma amostra, mas fiquei desejando um dia de sol no Vale dos Cristais, uma das principais atrações do monte. Para relaxar depois de tanto caminhar, pode se jogar em uma das jacuzzis naturais.

Jacuzzi natural

Quartzo 
À parte do mundo real, o Monte Roraima também atrai pelo lado místico. Dizem haver uma energia diferente lá. Um lugar propício a REENCONTROS, seja consigo mesmo ou com algo perdido. Bem, sou suspeita para falar dessas coisas. Sou o ceticismo em pessoa. Espiritualidade não é meu forte. Mas uma segunda história me tocou profundamente no caminho de volta e eu agradeço a essa pessoa por ter compartilhado uma experiência tão íntima comigo. Só posso dizer que nunca mais olharei uma borboleta displicentemente. Obrigada!

Diante de tudo isso, o que posso dizer é que, depois de 7 dias de expedição, a despedida deixou um gosto de quero mais, uma vontade de voltar para ver todo o esplendor desse lugar sob a luz do sol. 

A galera!


MELHORES MOMENTOS

Improvisando no chuva

Momento "nóis capota mas num breca"

Carregador também descansa na subida
Amanhecer no acampamento do Rio Tek

Gelatina feita naturalmente com o frio da noite no topo do Roraima

Hora do lanche

Parada para descanso

Banheiro


O QUE PRECISO SABER ANTES DE IR

1. TRAVESSIA PARA VENEZUELA
Embora uma parte do Monte Roraima fique no Brasil, o roteiro disponível hoje para fazer o trekking até o topo só parte do lado da Venezuela, mais precisamente na comunidade indígena de Paratepuy, no Parque Nacional Canaima. O jeito mais fácil de chegar é pela cidade de Boa Vista, capital do estado de Roraima. De carro, são duas horas e meia até a fronteira. A primeira cidade venezuelana é Santa Elena de Uarén, de onde partem os veículos 4x4 até Paratepuy para início do trekking.

2. DOCUMENTOS OBRIGATÓRIOS
Você pode optar por usar o passaporte ou o RG (não aceitam carteira de habilitação) para entrar na Venezuela. Com o RG o procedimento é mais rápido já que dispensa a passagem pelo posto da Polícia Federal. A vacina de febre amarela é exigida.

3. CONTRATAÇÃO DE GUIA
 Não se pode fazer a trilha para subir o monte sem a presença de um guia credenciado. No Brasil, várias agências oferecem o pacote completo desde a saída de Boa Vista. Quem preferir, pode ir por conta própria até Santa Elena e lá contratar o serviço para a viagem.

4. CONTRATAÇÃO DE CARREGADORES
Na aldeia de Paraitepuy há a opção de contratar um indígena para levar sua bagagem durante todo trekking. Quando fui (abril/2016) estavam cobrando 70 mil bolívares venezuelanos. A cotação (no mercado paralelo) estava R$ 1 = 265 Bolívares. Eles carregam no máximo 15 kg. Além disso, será cobrada a alimentação diária do carregador. Eu gastei cerca de R$ 580 no total. Dica: embale todos os seus pertences e sacos plásticos para não ter uma surpresa desagradável em caso de chuva.

5. ONDE FAZER CÂMBIO
No lado brasileiro, pouco antes de chegar à fronteira, há onde comprar bolívares na cidade de Paracaima. Em Santa Elena também pode fazer câmbio. Mas lembre-se: é tudo na informalidade.

6. OPÇÕES DE ROTEIROS
O trajeto de subida e descida é sempre o mesmo não importa a agência contratada ou o guia escolhido. O que muda são os passeios que fará no topo. Há opções de 2 a 5 noites lá em cima. São 3 dias para subir e 2 para descer. Não existe opção de hotel no caminho. As acomodações são sempre em barracas. Também não há banheiros.

7. ALIMENTAÇÃO
A alimentação está incluída no pacote. Café da manhã, almoço e jantar. Leve apenas lanches para a trilha.

8. MELHOR ÉPOCA PARA IR
O clima muda muito rapidamente no monte. Em tese, a época com menos chuva é de outubro a março. De abril a setembro é a estação chuvosa. No topo, as temperaturas chegam fácil a 0º.

9. VIAGEM EM EXPEDIÇÃO
Lembre-se que essa é uma viagem em formato de expedição. Ou seja, se você não contratou um guia só para você, é certo que será incluído em um grupo. O espírito tem que ser o de equipe. Todos se ajudando para que não haja nenhum imprevisto e a expedição transcorra sem problemas.

10. DINHEIRO NA TRILHA
Sim, é bom levar um pouco de bolívares. Não há nada para se comprar no caminho, apenas em um dos acampamento há um barzinho improvisado onde vendem refrigerantes e cerveja.


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3 comentários:

  1. Olá Silvia! Gostei muito do material produzido durante a viagem! Foi um grande prazer dividir esta viagem com um casal tão simpático e companheiro! Parabéns! Luiz H. Giublin

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    1. Luiz, também só temos a agradecer pelo companheiro de aventura que vc foi. Até a próxima!

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  2. Sílvia, obrigada por nos brindar com seu relato sensível a nossa expedição. Com certeza, o Monte Roraima nos mostrou o quão pequenos somos diante da imensidão da natureza e que somos capazes de superar os desafios que se apresentam em nossos caminhos.
    Dolores Tirado

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